sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Maktub

Nem vem tentar me convencer que isso é arte abstrata porque comigo não cola!

A leitura sempre representou muito mais do que uma mera distração ou incômoda obrigação: ela é o caminho que encontrei para saciar uma inesgotável curiosidade (lembra daquele menino pentelho do Castelo Ra-Tim-Bum?). E quanto mais eu exploro, mais o conhecimento se aprofunda, denunciando as limitações do meu minúsculo espírito prepotente.


Agora que reduzi minha autoestima às proporções nanométricas, preciso assumir que embora seja apaixonada pela leitura, torço o nariz para alguns gêneros. A poesia, por exemplo. De repente essa personalidade ansiosa e inquieta de querer conceber e abarcar tudo-junto-e-misturado-de-uma-vez-só, naturalmente conduziu minhas preferências às crônicas, contos e romances. E embora tenha feito tentativas no sentido de coibir esse pensamento preconceituoso, é bem verdade que muitas experiências resultaram em frustração.

Sei lá, por vezes me parece figurativo demais, tipo a fábula da “Roupa Nova do Rei”, quando ninguém queria admitir que fosse burro por não conseguir enxergar aquele exemplar majestoso de vestimenta, visível apenas para os inteligentes. Ou como certas manifestações de “arte-abstrata”. Você se dispõe a perder duas horas da vida olhando para uma tela branca com um círculo vermelho pincelado no centro, torcendo para que seja agraciado com um Insight que o permita captar toda a genialidade contida naquela obra e, enfim, traduzir a mensagem subliminar codificada pelo pintor. Esquece. Não tem nada mesmo pra ver. É só um círculo vermelho no meio de uma tela branca. A explicação mais provável para ele estar ali é que algo foi insuficiente: a tinta, a disposição ou mesmo o talento do artista. Revestir as coisas numa aura de incompreensão e mistério é fórmula batida para transformar um embrulho vazio num pacote dourado e atraente, acessível apenas aos poucos “eleitos” a quem foi concedido o poder do entendimento. Ora bolas, se fosse por isso a Gaga de Ilhéus seria uma sumidade superdotada, porque não entendo absolutamente nada do que ela diz.

Porém, algumas simples manifestações do acaso premiaram meu gênio indomável com “aquela” sensação. Foi o caso do Poema Invictus, um texto curtinho, escrito em 1875 pelo inglês William Ernest Henley. Antes de falar mais sobre o texto e as emoções que despertou em mim, compartilho com vocês essa obra prima:

Invictus

“Noite à fora que me cobre
Negra como um breu de ponta a ponta,
Eu agradeço, a quem forem os deuses
Por minha alma incansável.

Nas cruéis garras da circunstância
Eu não fiz cara feia ou sequer gritei.
Sob as pauladas da sorte
Minha cabeça está sangrenta, mas não rebaixada.

Além deste lugar de raiva e lágrimas
É iminente o horror da escuridão,
E ainda o avançar dos anos
Encontra, e me encontrará, sem medo.

Não importa o quão estreito seja o portão,
O quão carregado com castigos esteja o caminho,
Eu sou o mestre de meu destino;
Eu sou o capitão de minha alma.”

Fiz questão de destacar os últimos versos porque considerei os de maior impacto. E coincidentemente abordam um tema que há dias vinha pensando em escrever e não sabia como: o destino.

Embora não me agrade a ideia de usar este espaço para tatear pelo terreno minado que é a religião (em respeito aos leitores e suas convicções divergentes), preciso dizer que tenho uma convicção religiosa (e porque não dizer, filosófica) de que tudo de bom ou ruim que acontece na vida tem uma explicação, presidida pela Lei de Causa e Efeito. E dessa certeza parte meu entendimento sobre tudo: Deus, o Universo, as pessoas e os acontecimentos.

Porém, não é raro que quem pense assim tenha uma tendência em atribuir todos os fatos da vida a um destino inexorável, superior ao nosso controle. Se algo terrível e inesperado lhe aconteceu, é em decorrência desse destino que você mesmo plantou tempos atrás. Portanto, cabe apenas aceitar a justiça dos fatos.

Comigo não foi diferente. Talvez pela inclinação negativista eu tenha deturpado essa convicção. E ao invés de enxergar e consequentemente compreender todas as mínimas nuances, avaliando a crença num contexto mais amplo, preferi me apegar ao determinismo e rezar para que nada de ruim me ocorresse, considerando que nada poderia fazer para modificar essa realidade. Mas algumas reflexões me ajudaram a evoluir nesse aspecto. E o poema de Ernest foi a cereja do bolo!

O texto foi escrito numa cama de hospital, num dos muitos momentos de atribulação que marcaram sua vida. Vítima de uma tuberculosa óssea, teve a perna amputada ainda na adolescência, ficou órfão de pai muito jovem, perdeu a única filha vítima de meningite e, mesmo tendo convivido com a enfermidade que o assombrava e a deficiência física durante quase toda a vida, conseguiu chegar aos 53 anos de forma lúcida e ativa, justamente numa época em que a expectativa de vida não era lá essas coisas. Era um homem de personalidade forte e de profundas convicções, que fazia questão de defender com ardor, o que tornou célebre algumas inimizades como com o escritor Oscar Wilde, contra quem escreveu uma crítica desfavorável.

A impressão que Invictus me passou é que, independente dos preceitos religiosos vigentes naquele período e que envolviam os destinos dos homens e as características da entidade superior que os controlava, William não subestimou os poderes de SUA força de vontade e de seu livre arbítrio. Independente dos desígnios “dos deuses” (sejam eles quais forem, considerando a forma como diferentes religiões os pintavam) e das circunstâncias da vida que tão duramente e continuamente o golpeava, ele não se permitiu abalar ou desistir. Ou acreditar-se fadado a um caminho inevitável, cuja mudança estaria fora de seu alcance. E Ernest não teme chocar ou ferir o melindre religioso: afirma que independente das consequências do caminho que tenha escolhido e dos castigos que disso tenham advindo (ou ainda venham a ocorrer), ele assume todos os riscos, declarando-se CAPITÃO DA SUA ALMA. Veja bem: ele não diz que é o “dono”, mas sim o “condutor”.

William, na minha concepção, captou a distinção exata entre resignação e conformismo, cuja diferença é, ao mesmo tempo, sutil e gritante. Uma representa a reação do otimista. A outra, a do pessimista.

A resignação é o sentimento do trabalhador que é surpreendido pelo desemprego, e embora abalado pelo triste acontecimento, aceita que nada mais pode fazer EM RELAÇÃO ÀQUELA VAGA PERDIDA. Mas nada o impede de encher-se de coragem e confiança e assim, no da seguinte, lançar-se no mundo em busca de uma nova colocação. O conformista, por sua vez, recolhe-se ao estado de agitação e desespero, procurando culpados e vestindo-se do papel de vítima. E ao invés de concentrar suas energias no sentido de seguir em frente, prende-se ao passado, remoendo sua dura sina.

Resignado é o homem que, por uma fatalidade, perde uma perna e aceita o fato de que outra perna não irá nascer no lugar. Sua deficiência é incontestável, mas ele contesta, sim, o nível de limitação à que estaria “condenado”. Corajoso, rejeita uma vida de dependência e ócio e lança mão de todos os recursos disponíveis aliado à sua força de vontade, que o permitem superar e mudar os contornos de seu “destino”. Ao passo que o conformista carrega a deficiência imediatamente para sua forma de pensar, de agir, de lidar consigo e com o mundo. Torna o sofrimento tão superlativo que em alguns momentos a gente até imagina que o sujeito gosta mesmo de sofrer e se num passe de mágica fosse-lhe ofertada a oportunidade de reverter a situação, ele recusaria, porque daí não teria mais do que se queixar.

Em resumo, de certa forma, acredito, sim, que alguns fatos da vida estão fora do nosso controle e simplesmente ocorram, independente de desejarmos ou esperarmos o contrário. Talvez seja essa a parcela que o "destino" nos reserva. Porém, o que faremos DEPOIS desses fatos é que faz toda a diferença. A dor de quem sofre é sempre a mesma, o peso do golpe é igualmente forte, o choro pela perda não é menos amargo. Mas os INVICTUS não se permitem transformar o pranto em dilúvio nem fazer da tristeza o seu estado habitual. Eles lutam e vencem ao final de tudo, porque assumem as rédeas de sua vida. São os CAPITÃES DE SUAS ALMAS.

Talvez seja esse o meu maior objetivo de vida: ser mais forte. Não aquele conceito de “força” místico e exagerado que mais parece um estado de dormência, já que pretensamente blinda o sujeito contra tudo de ruim. O mundo pode tá se acabando e ele ali, fazendo cara de Chuck Norris. Esquece. Isso só existe nos filmes. Na prática, enquanto o atorzão faz caras e bocas, tem um dublê lá, se matando no lugar dele. O que quero conquistar a cada dia é a VERDADEIRA força, no sentido da superação, da volta por cima, da BRAVURA pra enfrentar as dificuldades que toparem pelo meu caminho. Afinal, ninguém está imune ao sofrimento. Mas certamente podemos nos tornar imunes à ideia de que as pancadas da vida tornam a existência irreversivelmente insuportável. No final das contas, vale sempre a certeza de que tudo vai passar!

Um grande beijo para todos!

 

2 comentários:

  1. Achei excelente sua interpretação e explanação do poema (e do tema).

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